Nossa missão
Luis Fernando Verissimo
Você e eu estamos na Terra para nos reproduzirmos. Tudo o mais que fazemos, tudo a mais que nos acontece, ou é decorrência ou é passatempo. Nossa missão é transmitir os nossos genes, multiplicar a nossa espécie e dar o fora. A Natureza só se interessa pelos nossos anos férteis. O que vem antes e depois é preparação e epílogo, ou entra no pacote como brinde. Se a Natureza quisesse otimizar seus métodos, como um empresário moderno, já nasceríamos púberes e morreríamos assim que nossos filhos, que também nasceriam púberes, pudessem criar seus filhos (púberes) sem a ajuda dos avós. Daria, no total, uns 35, 40 anos de vida, e adeus. O que resolveria a questão demográfica do planeta e, claro, os problemas da Previdência. Mas a Natureza nos dá o resto da vida, a infância e a velhice e todos os prazeres extra-reprodutivos do mundo, inclusive os sexuais, como um chaveiro. Pela missão cumprida.
A laranjeira não existe para dar laranja, existe para produzir e espalhar sua própria semente. A fruta não é o objetivo da planta frutífera, é o que ela usa para carregar suas sementes, é o seu estratagema. Agradecer à laranjeira pela laranja é não entendê-la. Ela não sabe do que nós estamos falando. Suco? Doçura? Vitamina C? Eu?! Você e eu ficamos aí especulando sobre o que a vida quer de nós, e só o que a vida quer é continuar. Seja em nós e na nossa prole, seja na minhoca e na sua descendência. Nossa missão, nossa explicação, é a mesma do rinoceronte e da anêmona. Estamos aqui para fazer outros iguais a nós. Isto que chamamos, carinhosamente, de "eu", com suas peculiaridades e sua biografia única, não é mais do que uma laranja personalizada. Um estratagema da Natureza, a polpa com que a Natureza protege a nossa semente e assim assegura a continuação da vida. Enfim, um grande mal-entendido. E os que passam pelo mundo sem se reproduzir? São caronas. Ganham o brinde mesmo sem merecer o pacote. A Natureza não discrimina.
Quando Marte esteve perto assim da Terra pela última vez, há 60 mil anos, o que havia de mais parecido com gente era o homem de Neandertal. Há pouco ficamos sabendo que nem parente nosso ele era, mas já devia existir no mundo, então, leitor, em algum pré-chimpanzé, o seu DNA. O meu não porque meus ancestrais não descendem de um casal de macacos, como os de todo o mundo: foram adotados. O inglês Richard Dawkins usou uma imagem poética da Bíblia, "E saía um rio do Éden para regar o jardim, e dali se dividia e se tornava em quatro braços" (Gênesis, 2:10), como epígrafe do seu livro “River out of Eden”, no qual ele fala da evolução como um rio de genes que brota da nascente da humanidade e corre através do tempo, bifurcando-se, quadrifurcando-se, etc., trazendo o código vital de todos os seres que existem. E todos os seres vivos, hoje, têm em comum genes vencedores, ou que encontraram portadores bem sucedidos e não enveredaram por braços mortos do rio. Todos os nossos ancestrais, sem exceção, viveram pelo menos até a puberdade e encontraram pelo menos um parceiro heterossexual com o qual tiveram pelo menos uma relação sexual. Somos todos descendentes de sobreviventes férteis. Só o que a Natureza nos pede é que não os decepcionemos.
Marte voltará a se aproximar da Terra daqui a 284 anos. Provavelmente não estarei mais aqui, o que não me impede de especular sobre que tipo de gente estará. A evolução humana já acabou e nenhum aperfeiçoamento da espécie é possível ou desejável depois da Patrícia Pillar ou a humanidade terá mudado em 2287? Nossas alterações físicas têm acontecido lentamente. Certamente não haverá tempo para a correção das distrações mais evidentes da evolução, como a permanência dos mamilos nos homens e das unhas nos pés. Mas daqui a 284 anos nasceremos, por exemplo, com celulares colados no ouvido? Uma modificação fascinante é possível. Os primeiros homens tinham a pele negra para protegê-los do Sol. Só depois da diáspora africana e da ocupação do Hemisfério Norte é que a nossa pele começou a clarear. Com o aquecimento progressivo da Terra não é demais especular que em 2287 seremos todos, de novo, negros. Até os noruegueses. Isso se ainda sobrar gente na Terra, e observadores de Marte não concluírem que os sinais de civilização eram enganosos e nunca houve realmente vida inteligente no planeta azul.
Domingo, 31 de agosto de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.